Minha inserção como aluno de matrícula especial
no Programa de Pós-Graduação em Educação da UNEB, na disciplina “Tópicos
Especiais: Educação, Psicanálise e Subjetividade”, vinculada à Linha de
Pesquisa 2 – Formação de Professores, ministrada pela professora pós-doutora
Maria de Lourdes Ornellas, tem provocado reflexões importantes acerca do modo
como compreendo a educação e seus processos.
Desde os primeiros encontros, chamou atenção a
proposta de pensar a educação a partir de seu “avesso”, ou seja, não apenas
como um campo de normas, conteúdos e práticas institucionalizadas, mas como um
espaço atravessado pelo inesperado, pelo não controlável e pelas dimensões
subjetivas dos sujeitos envolvidos. Nesse sentido, aproximar a educação da
psicanálise implica reconhecer que o processo educativo não se limita à transmissão
de conhecimentos, mas envolve o desejo, o inconsciente e a escuta.
As discussões inspiradas na teoria de Jacques
Lacan vêm tensionando dicotomias tradicionais, como ouvir e escutar, saber e
conhecimento, sexualidade e ideologia, letra escrita e letra falada, corpo e
mente. Esses pares não se apresentam como oposições rígidas, mas como campos de
tensão que ampliam a compreensão da prática educativa. A escuta, por exemplo,
ultrapassa o simples ato de ouvir, exigindo do educador uma postura ética e
sensível ao que emerge para além do discurso explícito.
Nesse contexto, a psicanálise contribui para a
educação ao introduzir uma ética do desejo, deslocando o foco de uma pedagogia
centrada apenas na normatização para uma perspectiva que reconhece o sujeito em
sua singularidade. Enquanto a educação tradicionalmente se ocupa da
socialização e da transmissão de normas, a psicanálise convoca o educador a
lidar com aquilo que escapa a essas estruturas: o inconsciente, o afeto e a
incompletude.
Outro ponto relevante refere-se à compreensão
de que não há sujeito pleno ou integral. A metáfora da fita de Möbius ilustra
bem essa ideia ao representar a inexistência de uma separação clara entre
interior e exterior, sugerindo que o sujeito é constituído em uma dinâmica
contínua e paradoxal. Essa noção desafia práticas educativas que buscam
totalidade ou controle absoluto sobre os processos formativos.
A partir da tríade lacaniana (Real, Simbólico e
Imaginário) também se amplia a leitura sobre o contexto educativo. O Real
aparece como aquilo que irrompe de forma inesperada, o Simbólico relaciona-se à
linguagem, às normas e às estruturas sociais, enquanto o Imaginário envolve as
construções identitárias e culturais. Essas dimensões coexistem no cotidiano
escolar e exigem do professor uma postura atenta e reflexiva. Além disso,
conceitos como sujeito, transferência, escuta, estilo e afeto emergem como
fundamentos para pensar a relação entre educação e psicanálise.
Por fim, essas reflexões iniciais também
provocam questionamentos sobre a relação entre psicanálise e Educação Física Escolar,
especialmente no que diz respeito ao reconhecimento do sujeito para além do
corpo biológico, considerando suas dimensões simbólicas, afetivas e desejantes.
Dessa forma, os primeiros dias de aula indicam
que a articulação entre psicanálise e educação não oferece respostas prontas,
mas abre um campo de problematizações que desafiam práticas pedagógicas
tradicionais, convidando o educador a assumir uma posição ética fundada na
escuta, no desejo e na incompletude do sujeito.
Lauro de Freitas,
05 de maio de 2026