terça-feira, 5 de maio de 2026

Psicanálise e Educação: Minhas percepções iniciais

 

Minha inserção como aluno de matrícula especial no Programa de Pós-Graduação em Educação da UNEB, na disciplina “Tópicos Especiais: Educação, Psicanálise e Subjetividade”, vinculada à Linha de Pesquisa 2 – Formação de Professores, ministrada pela professora pós-doutora Maria de Lourdes Ornellas, tem provocado reflexões importantes acerca do modo como compreendo a educação e seus processos.

Desde os primeiros encontros, chamou atenção a proposta de pensar a educação a partir de seu “avesso”, ou seja, não apenas como um campo de normas, conteúdos e práticas institucionalizadas, mas como um espaço atravessado pelo inesperado, pelo não controlável e pelas dimensões subjetivas dos sujeitos envolvidos. Nesse sentido, aproximar a educação da psicanálise implica reconhecer que o processo educativo não se limita à transmissão de conhecimentos, mas envolve o desejo, o inconsciente e a escuta.

As discussões inspiradas na teoria de Jacques Lacan vêm tensionando dicotomias tradicionais, como ouvir e escutar, saber e conhecimento, sexualidade e ideologia, letra escrita e letra falada, corpo e mente. Esses pares não se apresentam como oposições rígidas, mas como campos de tensão que ampliam a compreensão da prática educativa. A escuta, por exemplo, ultrapassa o simples ato de ouvir, exigindo do educador uma postura ética e sensível ao que emerge para além do discurso explícito.

Nesse contexto, a psicanálise contribui para a educação ao introduzir uma ética do desejo, deslocando o foco de uma pedagogia centrada apenas na normatização para uma perspectiva que reconhece o sujeito em sua singularidade. Enquanto a educação tradicionalmente se ocupa da socialização e da transmissão de normas, a psicanálise convoca o educador a lidar com aquilo que escapa a essas estruturas: o inconsciente, o afeto e a incompletude.

Outro ponto relevante refere-se à compreensão de que não há sujeito pleno ou integral. A metáfora da fita de Möbius ilustra bem essa ideia ao representar a inexistência de uma separação clara entre interior e exterior, sugerindo que o sujeito é constituído em uma dinâmica contínua e paradoxal. Essa noção desafia práticas educativas que buscam totalidade ou controle absoluto sobre os processos formativos.

A partir da tríade lacaniana (Real, Simbólico e Imaginário) também se amplia a leitura sobre o contexto educativo. O Real aparece como aquilo que irrompe de forma inesperada, o Simbólico relaciona-se à linguagem, às normas e às estruturas sociais, enquanto o Imaginário envolve as construções identitárias e culturais. Essas dimensões coexistem no cotidiano escolar e exigem do professor uma postura atenta e reflexiva. Além disso, conceitos como sujeito, transferência, escuta, estilo e afeto emergem como fundamentos para pensar a relação entre educação e psicanálise.

Por fim, essas reflexões iniciais também provocam questionamentos sobre a relação entre psicanálise e Educação Física Escolar, especialmente no que diz respeito ao reconhecimento do sujeito para além do corpo biológico, considerando suas dimensões simbólicas, afetivas e desejantes.

Dessa forma, os primeiros dias de aula indicam que a articulação entre psicanálise e educação não oferece respostas prontas, mas abre um campo de problematizações que desafiam práticas pedagógicas tradicionais, convidando o educador a assumir uma posição ética fundada na escuta, no desejo e na incompletude do sujeito.


Discente: Marielson Nascimento Alves

Lauro de Freitas, 05 de maio de 2026