Resumo
do capítulo VI do Livro Psicanalise e educação: Novos operadores de leitura, da
autora Leny Mrech, publicado em 2002. Atividade vinculada à disciplina Tópicos
Especiais: Educação, Psicanálise e Subjetividade do Programa de Pós Graduação
em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC) da UNEB, vinculada à Linha de
Pesquisa 2 – Formação de Professores, ministrada pela professora pós-doutora
Maria de Lourdes Ornellas. Resumo produzido pelo discente Marielson Nascimento Alves.
A informática: um dos nomes da sociedade contemporânea
O capítulo VI da obra de Leny Mrech propõe uma
reflexão crítica sobre a informática como um dos principais símbolos da sociedade
contemporânea. A autora não trata a informática apenas como avanço técnico, mas
como um fenômeno cultural e subjetivo que reorganiza as formas de relação
humana, de comunicação e também os modos de ensinar e aprender.
Segundo Mrech (2002), vivemos uma espécie de
crença coletiva em uma rede mundial de informações capaz de conduzir a
humanidade a um novo estágio comunicacional. A informática aparece, então, como
promessa de conexão total, rapidez e superação das dificuldades comunicativas
da humanidade. Entretanto, a autora alerta que exatamente aquilo que se
apresenta de forma mais visível pode também operar como forma de encobrimento
de outras formas.
Nesse ponto, a discussão aproxima-se da
Psicanálise. A autora afirma que, quanto mais evidente parece ser um fenômeno
social, mais necessário se torna investigar aquilo que permanece oculto sob sua
aparência. Assim, a informática não deve ser compreendida apenas pelo seu
aspecto funcional ou tecnológico, mas pelos efeitos subjetivos e simbólicos que
produz.
Mrech situa essa discussão no contexto da
sociedade pós-moderna. Diferentemente da modernidade, que valorizava a
autenticidade e os objetos originais, a pós-modernidade desloca o valor para a
imagem e para a reprodução.
O objeto original perde centralidade e passa a
existir como referência simbólica. O importante já não é possuir o original,
mas acessar sua imagem, sua réplica, sua representação. Surge, então, a lógica
da sociedade de massas, em que todos podem consumir versões reproduzidas do
objeto.
Nesse cenário, o imaginário ganha nova força. A
imagem deixa de representar o objeto e passa a ocupar o lugar dele. É nesse
contexto que a autora aponta a realidade virtual e o ciberespaço como
expressões máximas dessa predominância da imagem.
Há aqui uma forte aproximação com o pensamento
de Jacques Lacan, especialmente em relação ao registro do imaginário. Para
Lacan, o sujeito se constitui também por identificações imagéticas, por formas
ilusórias de completude. A sociedade contemporânea amplia esse processo ao
transformar a imagem em organizadora central das relações sociais.
Um dos pontos mais importantes do capítulo é
quando Mrech afirma que a informática não é propriamente a comunicação em
movimento, mas o semblante desse movimento.
A palavra “semblante”, em Lacan, é fundamental.
O semblante não é simplesmente mentira; ele é uma aparência que organiza a
realidade social. Assim, a informática oferece a promessa de uma comunicação
plena entre os seres humanos.
Contudo, a Psicanálise sustenta justamente o
contrário: a comunicação humana é marcada pela falta, pelo mal-entendido e pela
impossibilidade de dizer tudo. O sujeito nunca consegue transmitir
integralmente aquilo que deseja dizer.
Nesse sentido, a informática aparece quase como
uma tentativa de reparar a falha estrutural da linguagem humana. Como se o
ciberespaço pudesse resolver os desencontros da comunicação real.
A autora levanta questões provocativas, algumas
delas poderia ser formulada assim: Se a comunicação entre os sujeitos é tão
difícil, estaríamos tentando substituir os vínculos humanos por conexões
tecnológicas?
Essa crítica não significa rejeição da
tecnologia, mas uma tentativa de compreender o desejo que sustenta essa busca
incessante por conexão.
Outro aspecto importante destacado por Mrech é
que frequentemente esquecemos que as máquinas foram criadas a partir do próprio
homem.
Inventar um computador ou a informática significa
materializar formas humanas de pensamento. A máquina não é exterior ao sujeito;
ela é produto da própria subjetividade humana.
Por isso, a Psicanálise não pode ignorar a
informática. O psicanalista precisa escutar o que essa tecnologia “fala” sobre
o sujeito contemporâneo.
A autora afirma que os objetos produzidos pelos
sujeitos também carregam significados e divisões. Em Lacan, o sujeito é
estruturalmente dividido, atravessado pela falta e pelo inconsciente. Assim,
seus produtos também apresentam ambivalência: Ao mesmo tempo em que criam; Também
podem destruir.
A informática amplia possibilidades de
conhecimento, comunicação e acesso, mas também pode intensificar alienações,
dependências e apagamentos subjetivos.
Na parte final do capítulo, Mrech desloca a
discussão para a educação.
Ela afirma que a Psicanálise não deve fornecer
respostas prontas à educação. Seu papel é outro: provocar questões, produzir
escuta e permitir novas leituras dos processos educativos.
Aqui aparece uma ideia muito importante da
tradição psicanalítica: ensinar não é apenas transmitir conteúdo.
A grande questão deixa de ser:
“Como fazer o aluno aprender?”
e passa a ser:
“Como despertar o desejo de saber?”
A autora propõe que o professor reconheça que
existe algo no processo educativo que escapa ao controle técnico e
metodológico. Nem toda recusa em aprender é falta de capacidade cognitiva;
muitas vezes envolve questões subjetivas, afetivas e inconscientes.
Por isso, a pergunta final do capítulo é
extremamente potente: O que é preciso fazer para ensinar um aluno que não quer
aprender?
Do ponto de vista psicanalítico, talvez não
exista uma técnica capaz de garantir isso. O que existe é a possibilidade de
criar condições simbólicas para que o desejo de saber possa emergir.
A reflexão de Leny Mrech continua extremamente atual porque nos ajuda a perceber que a tecnologia não é neutra. A informática não modifica apenas instrumentos de comunicação; ela também transforma modos de subjetivação, relações sociais e processos educativos. A Psicanálise, especialmente a partir de Lacan, nos convida a olhar para além do fascínio tecnológico e perguntar quais desejos, faltas e formas de alienação estão sendo produzidos na sociedade contemporânea. Na educação, isso significa reconhecer que ensinar não é apenas transmitir informações, mas lidar com sujeitos atravessados pela linguagem, pelo desejo e pela falta.
Referencia
MRECH,
Leny Magalhães. Psicanalise e educação: Novos Operadores de leitura. São
Paulo: Pioneira Thomson Learning. 2002.
Produção: Marielson Nascimento Alves
Lauro de Freitas, 16 de maio de 2026







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