Atividade da disciplina Tópicos Especiais: Educação, Psicanálise e Subjetividade do Programa de Pós Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC) da UNEB, vinculada à Linha de Pesquisa 2 – Formação de Professores, ministrada pela professora pós-doutora Maria de Lourdes Ornellas e desenvolvida pelo discente Marielson Nascimento Alves em 15 de junho de 2026, tendo como temática o Filme Sonata de Outono, lançado em outubro de 1978.
Eva e Charlote, personagens centrais da narrativa.
RESENHA CRÍTICA DO FILME SONATA DE OUTONO: UMA LEITURA À LUZ DA EDUCAÇÃO, PSICANÁLISE E SUBJETIVIDADE
O filme Sonata de Outono (1978), dirigido
por Ingmar Bergman, apresenta uma grande reflexão sobre os vínculos familiares,
os conflitos subjetivos e as marcas emocionais produzidas pelas relações
parentais ao longo da vida. A narrativa concentra-se no reencontro entre
Charlotte, uma renomada pianista que dedicou grande parte de sua existência à
carreira artística, e sua filha Eva, que convivia há anos com sentimentos de
abandono, carência afetiva e sofrimento decorrentes da relação estabelecida com
a mãe. A obra transcende a dimensão familiar e oferece importantes elementos para
compreender os processos de constituição da subjetividade, temática diretamente
relacionada aos debates desenvolvidos na disciplina Educação, Psicanálise e
Subjetividade.
Desde as primeiras cenas, o filme sugere a
existência de elementos simbólicos que acompanham o desenvolvimento da
narrativa. Um aspecto que chama atenção é o vestido vermelho utilizado por Eva
no início do filme. Posteriormente, Charlotte também aparece vestida de
vermelho, estabelecendo uma associação simbólica entre mãe e filha. Essa
aproximação visual parece representar a forte influência materna na
constituição subjetiva de Eva, ainda que essa influência tenha sido marcada
pela ausência afetiva e pela dificuldade de estabelecer vínculos consistentes.
Ao final do filme, Eva aparece utilizando outra vestimenta, em posição
semelhante à apresentada na cena inicial. Tal mudança pode ser interpretada
como um processo de transformação subjetiva decorrente do confronto emocional
vivenciado ao longo da narrativa.
A chegada de Charlotte à casa de Eva constitui o
ponto de partida para a revelação de conflitos acumulados durante décadas.
Embora a visita ocorra logo após a morte do marido de Charlotte, o filme levantou
questionamentos sobre as reais motivações dessa aproximação. Em diversos
momentos, a personagem demonstra preocupação consigo mesma, seus projetos e
seus interesses pessoais, sem apresentar efetiva disposição para compreender as
necessidades emocionais das filhas. Tal comportamento evidencia uma possível
dificuldade de Charlotte em estabelecer relações pautadas na escuta, na empatia
e no cuidado.
A situação torna-se ainda mais evidente quando
Charlotte descobre que Helena, sua outra filha, portadora de uma grave
deficiência física, está vivendo sob os cuidados de Eva. A mudança imediata de
expressão da personagem revela um desconforto que contrasta com a aparente
felicidade demonstrada momentos antes. Embora posteriormente Charlotte
manifeste palavras de carinho dirigidas a Helena, tais demonstrações parecem
superficiais e pouco convincentes diante do histórico de afastamento
apresentado ao longo do filme. Nesse sentido, Helena surge como uma
representação da culpa materna e dos aspectos da vida que Charlotte tentou
evitar ou esquecer. Não por acaso, a personagem aparece em um dos momentos mais
impactantes do filme, quando, mesmo com severas limitações físicas, arrasta-se
pelo chão para ouvir a conversa entre a mãe e a irmã, demonstrando plena
consciência da realidade familiar que a cerca.
Sob uma perspectiva psicanalítica, a obra evidencia
como experiências vividas na infância permanecem atuando na vida adulta. Eva
revela ter sido profundamente marcada pela ausência da mãe, não apenas em
termos físicos, mas principalmente afetivos. Sua fala expõe a dor de uma
infância marcada pela espera, pela necessidade constante de reconhecimento e
pela impossibilidade de estabelecer um vínculo seguro com a figura materna. Os
relatos da personagem demonstram que as marcas deixadas por essa relação
ultrapassaram a infância e influenciaram sua forma de compreender a si mesma e
suas relações ao longo da vida.
Um momento significativo do filme ocorre na cena do
piano. Inicialmente, Charlotte observa a filha tocar e parece admirá-la.
Entretanto, logo assume a postura de especialista e passa a corrigir a
interpretação musical de Eva, demonstrando novamente sua dificuldade em acolher
a filha para além de critérios técnicos e exigências de desempenho. A cena
ultrapassa a dimensão artística e torna-se uma metáfora da própria relação
entre as duas personagens. Eva busca reconhecimento e afeto, Charlotte responde
com julgamento e crítica. Nesse contexto, o piano representa o espaço simbólico
em que a filha tenta ser vista e valorizada pela mãe, mas acaba novamente
confrontada com a insuficiência e a desaprovação.
Outro aspecto relevante refere-se à relação de Eva
com o filho falecido, Erik. Ao compartilhar suas memórias e sentimentos
associados à maternidade, a personagem demonstra que a experiência de cuidar do
filho proporcionou momentos de felicidade e realização pessoal. O próprio
marido de Eva reconhece que a chegada da criança produziu transformações
positivas em sua vida. Entretanto, a morte do filho reabre antigas feridas
emocionais e intensifica fragilidades já existentes. A cena sugere que a
maternidade permitiu a Eva experimentar uma forma de vínculo afetivo que ela
própria não havia recebido durante sua infância.
O ponto alto do filme ocorre durante a longa
conversa noturna entre mãe e filha. Nesse momento, Eva expressa sentimentos
acumulados por anos e verbaliza sofrimentos que permaneceram silenciados
durante grande parte de sua vida. Em uma das passagens mais marcantes do filme,
afirma diretamente: “Mãe, você conseguiu me prejudicar pela vida inteira”. A
frase sintetiza sua percepção acerca dos impactos produzidos pela ausência
afetiva materna. Mais do que uma acusação, trata-se de uma tentativa de dar
significado a dores que permaneceram reprimidas e que vem influenciando sua
trajetória pessoal.
Ao mesmo tempo, Charlotte também revela aspectos de
sua própria história. Ela relata ter vivido experiências de ausência de sua mãe
e reconhece suas dificuldades em lidar com os sentimentos da filha. Em
determinado momento, admite nunca ter amadurecido emocionalmente e afirma
sentir como se jamais tivesse realmente nascido. Essas falas evidenciam que o
sofrimento não se limita a uma única geração, mas atravessa a história
familiar. O filme sugere, assim, a existência de uma transmissão psíquica
intergeracional, na qual conflitos não elaborados tendem a ser reproduzidos nas
relações entre pais e filhos.
A obra também suscita reflexões importantes para o
campo educacional. Embora centrado na dinâmica familiar, o filme demonstra como
os processos de constituição subjetiva são influenciados pelas experiências de
reconhecimento, acolhimento e escuta. Tais elementos possuem estreita relação
com a prática educativa, uma vez que a educação envolve sujeitos que carregam
histórias, afetos, ausências e marcas produzidas em diferentes espaços de
convivência. Nesse sentido, a narrativa reforça a importância de compreender
que os processos de aprendizagem e desenvolvimento humano não podem ser
dissociados das experiências emocionais e das relações estabelecidas ao longo
da vida.
O desfecho do filme ficou aberto. Após o intenso
confronto emocional, Eva escreve uma carta para a mãe pedindo desculpas e
declarando seu amor. O marido lê a carta, mas como espectador ficou a dúvida se
ela foi efetivamente enviada. Mais importante do que a entrega da carta é a
possibilidade que ela representa: a tentativa de reconstruir um vínculo marcado
por feridas profundas. Bergman não oferece uma reconciliação definitiva entre
mãe e filha. Em vez disso, apresenta a complexidade das relações humanas e a
difícil tarefa de elaborar sofrimentos que atravessam gerações.
Em síntese, Sonata de Outono constitui uma
obra de grande relevância para as discussões sobre subjetividade e psicanálise,
visto em diferentes produções acadêmicas. O filme evidencia como a ausência
afetiva, os silenciamentos familiares e os conflitos não elaborados participam
da constituição do sujeito, influenciando suas relações e modos de existir. Ao
retratar o encontro entre mãe e filha como um espaço de confronto, dor e
possibilidade de elaboração, a narrativa convida o espectador a refletir sobre
os efeitos da escuta, do reconhecimento e do cuidado na construção das relações
humanas, oferecendo importantes contribuições para os debates desenvolvidos no
campo da educação contemporânea.
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A análise do filme Sonata de Outono
possibilita compreender que a constituição da subjetividade humana é marcada
por experiências afetivas que atravessam diferentes fases da vida e influenciam
a forma como os sujeitos percebem a si mesmos, aos outros e ao mundo. A relação
conflituosa entre Charlotte e Eva evidencia que ausências, silenciamentos,
rejeições e dificuldades de reconhecimento podem produzir marcas psíquicas
duradouras, cujos efeitos ultrapassam a infância e se manifestam na vida adulta
por meio dos vínculos, comportamentos e formas de enfrentamento das
adversidades.
Enquanto professor de Educação Física na Educação
Básica, a reflexão proporcionada pelo filme suscita importantes questionamentos
acerca da prática pedagógica. Frequentemente, o ambiente escolar é levado a
interpretar comportamentos, dificuldades de aprendizagem, desinteresse,
agressividade, retraimento ou conflitos interpessoais apenas a partir de suas
manifestações visíveis. Entretanto, a narrativa de Sonata de Outono
demonstra que, por trás de determinadas atitudes, podem existir histórias
marcadas por ausências afetivas, fragilidades emocionais, sentimentos de não
pertencimento e experiências de sofrimento que nem sempre encontram espaço para
serem verbalizadas.
Nesse contexto, o filme reforça a importância da
construção de uma escuta sensível no ambiente escolar. Não se trata de assumir
funções terapêuticas que extrapolam o papel docente, mas de reconhecer que o
processo educativo envolve sujeitos singulares, atravessados por diferentes
experiências de vida. A escuta, o acolhimento, o respeito às diferenças e a
criação de ambientes pedagógicos humanizados constituem elementos fundamentais
para que a escola se torne um espaço de reconhecimento e desenvolvimento
integral dos estudantes.
Na Educação Física, essa compreensão torna-se ainda
mais relevante, uma vez que o corpo frequentemente expressa sentimentos,
conflitos e subjetividades que não encontram lugar na linguagem verbal. As
relações estabelecidas durante as práticas corporais, os jogos, as lutas, as
danças e os esportes podem revelar aspectos importantes da constituição
subjetiva dos alunos, exigindo do professor sensibilidade para compreender que
cada estudante possui uma trajetória singular, marcada por experiências
familiares, sociais e emocionais próprias.
Por fim, Sonata de Outono contribui para
ampliar o olhar sobre os processos educativos ao evidenciar que educar implica
também reconhecer a complexidade humana. A obra reforçou reflexões sobre a
importância da escuta, do reconhecimento e do cuidado nas relações
interpessoais, evidenciando que a formação dos sujeitos não ocorre apenas pela
transmissão de conhecimentos, mas também pelas experiências afetivas que
possibilitam a construção de vínculos, a elaboração de sofrimentos e o
desenvolvimento da autonomia e da subjetividade.
REFERÊNCIA
BERGMAN, Ingmar. Sonata de Outono (Höstsonaten). Direção: Ingmar Bergman. Produção: Personafilm. Suécia, 1978. 1 filme (99 min.), son., color.
Filme disponível em: https://youtu.be/kiVUz8FmjP4?si=BE4mjRkfpO-QmKz_ acesso em: 14. jun. 2026.
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