segunda-feira, 15 de junho de 2026

Sonata de Outono, Psicanálise e Educação Física: Percepções subjetivas e Conexões possíveis

Atividade da disciplina Tópicos Especiais: Educação, Psicanálise e Subjetividade do Programa de Pós Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC) da UNEB, vinculada à Linha de Pesquisa 2 – Formação de Professores, ministrada pela professora pós-doutora Maria de Lourdes Ornellas e desenvolvida pelo discente Marielson Nascimento Alves em 15 de junho de 2026, tendo como temática o Filme Sonata de Outono, lançado em outubro de 1978.

Eva e Charlote, personagens centrais da narrativa.

RESENHA CRÍTICA DO FILME SONATA DE OUTONO: UMA LEITURA À LUZ DA EDUCAÇÃO, PSICANÁLISE E SUBJETIVIDADE

O filme Sonata de Outono (1978), dirigido por Ingmar Bergman, apresenta uma grande reflexão sobre os vínculos familiares, os conflitos subjetivos e as marcas emocionais produzidas pelas relações parentais ao longo da vida. A narrativa concentra-se no reencontro entre Charlotte, uma renomada pianista que dedicou grande parte de sua existência à carreira artística, e sua filha Eva, que convivia há anos com sentimentos de abandono, carência afetiva e sofrimento decorrentes da relação estabelecida com a mãe. A obra transcende a dimensão familiar e oferece importantes elementos para compreender os processos de constituição da subjetividade, temática diretamente relacionada aos debates desenvolvidos na disciplina Educação, Psicanálise e Subjetividade.

Desde as primeiras cenas, o filme sugere a existência de elementos simbólicos que acompanham o desenvolvimento da narrativa. Um aspecto que chama atenção é o vestido vermelho utilizado por Eva no início do filme. Posteriormente, Charlotte também aparece vestida de vermelho, estabelecendo uma associação simbólica entre mãe e filha. Essa aproximação visual parece representar a forte influência materna na constituição subjetiva de Eva, ainda que essa influência tenha sido marcada pela ausência afetiva e pela dificuldade de estabelecer vínculos consistentes. Ao final do filme, Eva aparece utilizando outra vestimenta, em posição semelhante à apresentada na cena inicial. Tal mudança pode ser interpretada como um processo de transformação subjetiva decorrente do confronto emocional vivenciado ao longo da narrativa.

A chegada de Charlotte à casa de Eva constitui o ponto de partida para a revelação de conflitos acumulados durante décadas. Embora a visita ocorra logo após a morte do marido de Charlotte, o filme levantou questionamentos sobre as reais motivações dessa aproximação. Em diversos momentos, a personagem demonstra preocupação consigo mesma, seus projetos e seus interesses pessoais, sem apresentar efetiva disposição para compreender as necessidades emocionais das filhas. Tal comportamento evidencia uma possível dificuldade de Charlotte em estabelecer relações pautadas na escuta, na empatia e no cuidado.

A situação torna-se ainda mais evidente quando Charlotte descobre que Helena, sua outra filha, portadora de uma grave deficiência física, está vivendo sob os cuidados de Eva. A mudança imediata de expressão da personagem revela um desconforto que contrasta com a aparente felicidade demonstrada momentos antes. Embora posteriormente Charlotte manifeste palavras de carinho dirigidas a Helena, tais demonstrações parecem superficiais e pouco convincentes diante do histórico de afastamento apresentado ao longo do filme. Nesse sentido, Helena surge como uma representação da culpa materna e dos aspectos da vida que Charlotte tentou evitar ou esquecer. Não por acaso, a personagem aparece em um dos momentos mais impactantes do filme, quando, mesmo com severas limitações físicas, arrasta-se pelo chão para ouvir a conversa entre a mãe e a irmã, demonstrando plena consciência da realidade familiar que a cerca.

Sob uma perspectiva psicanalítica, a obra evidencia como experiências vividas na infância permanecem atuando na vida adulta. Eva revela ter sido profundamente marcada pela ausência da mãe, não apenas em termos físicos, mas principalmente afetivos. Sua fala expõe a dor de uma infância marcada pela espera, pela necessidade constante de reconhecimento e pela impossibilidade de estabelecer um vínculo seguro com a figura materna. Os relatos da personagem demonstram que as marcas deixadas por essa relação ultrapassaram a infância e influenciaram sua forma de compreender a si mesma e suas relações ao longo da vida.

Um momento significativo do filme ocorre na cena do piano. Inicialmente, Charlotte observa a filha tocar e parece admirá-la. Entretanto, logo assume a postura de especialista e passa a corrigir a interpretação musical de Eva, demonstrando novamente sua dificuldade em acolher a filha para além de critérios técnicos e exigências de desempenho. A cena ultrapassa a dimensão artística e torna-se uma metáfora da própria relação entre as duas personagens. Eva busca reconhecimento e afeto, Charlotte responde com julgamento e crítica. Nesse contexto, o piano representa o espaço simbólico em que a filha tenta ser vista e valorizada pela mãe, mas acaba novamente confrontada com a insuficiência e a desaprovação.

Outro aspecto relevante refere-se à relação de Eva com o filho falecido, Erik. Ao compartilhar suas memórias e sentimentos associados à maternidade, a personagem demonstra que a experiência de cuidar do filho proporcionou momentos de felicidade e realização pessoal. O próprio marido de Eva reconhece que a chegada da criança produziu transformações positivas em sua vida. Entretanto, a morte do filho reabre antigas feridas emocionais e intensifica fragilidades já existentes. A cena sugere que a maternidade permitiu a Eva experimentar uma forma de vínculo afetivo que ela própria não havia recebido durante sua infância.

O ponto alto do filme ocorre durante a longa conversa noturna entre mãe e filha. Nesse momento, Eva expressa sentimentos acumulados por anos e verbaliza sofrimentos que permaneceram silenciados durante grande parte de sua vida. Em uma das passagens mais marcantes do filme, afirma diretamente: “Mãe, você conseguiu me prejudicar pela vida inteira”. A frase sintetiza sua percepção acerca dos impactos produzidos pela ausência afetiva materna. Mais do que uma acusação, trata-se de uma tentativa de dar significado a dores que permaneceram reprimidas e que vem influenciando sua trajetória pessoal.

Ao mesmo tempo, Charlotte também revela aspectos de sua própria história. Ela relata ter vivido experiências de ausência de sua mãe e reconhece suas dificuldades em lidar com os sentimentos da filha. Em determinado momento, admite nunca ter amadurecido emocionalmente e afirma sentir como se jamais tivesse realmente nascido. Essas falas evidenciam que o sofrimento não se limita a uma única geração, mas atravessa a história familiar. O filme sugere, assim, a existência de uma transmissão psíquica intergeracional, na qual conflitos não elaborados tendem a ser reproduzidos nas relações entre pais e filhos.

A obra também suscita reflexões importantes para o campo educacional. Embora centrado na dinâmica familiar, o filme demonstra como os processos de constituição subjetiva são influenciados pelas experiências de reconhecimento, acolhimento e escuta. Tais elementos possuem estreita relação com a prática educativa, uma vez que a educação envolve sujeitos que carregam histórias, afetos, ausências e marcas produzidas em diferentes espaços de convivência. Nesse sentido, a narrativa reforça a importância de compreender que os processos de aprendizagem e desenvolvimento humano não podem ser dissociados das experiências emocionais e das relações estabelecidas ao longo da vida.

O desfecho do filme ficou aberto. Após o intenso confronto emocional, Eva escreve uma carta para a mãe pedindo desculpas e declarando seu amor. O marido lê a carta, mas como espectador ficou a dúvida se ela foi efetivamente enviada. Mais importante do que a entrega da carta é a possibilidade que ela representa: a tentativa de reconstruir um vínculo marcado por feridas profundas. Bergman não oferece uma reconciliação definitiva entre mãe e filha. Em vez disso, apresenta a complexidade das relações humanas e a difícil tarefa de elaborar sofrimentos que atravessam gerações.

Em síntese, Sonata de Outono constitui uma obra de grande relevância para as discussões sobre subjetividade e psicanálise, visto em diferentes produções acadêmicas. O filme evidencia como a ausência afetiva, os silenciamentos familiares e os conflitos não elaborados participam da constituição do sujeito, influenciando suas relações e modos de existir. Ao retratar o encontro entre mãe e filha como um espaço de confronto, dor e possibilidade de elaboração, a narrativa convida o espectador a refletir sobre os efeitos da escuta, do reconhecimento e do cuidado na construção das relações humanas, oferecendo importantes contribuições para os debates desenvolvidos no campo da educação contemporânea.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A análise do filme Sonata de Outono possibilita compreender que a constituição da subjetividade humana é marcada por experiências afetivas que atravessam diferentes fases da vida e influenciam a forma como os sujeitos percebem a si mesmos, aos outros e ao mundo. A relação conflituosa entre Charlotte e Eva evidencia que ausências, silenciamentos, rejeições e dificuldades de reconhecimento podem produzir marcas psíquicas duradouras, cujos efeitos ultrapassam a infância e se manifestam na vida adulta por meio dos vínculos, comportamentos e formas de enfrentamento das adversidades.

Enquanto professor de Educação Física na Educação Básica, a reflexão proporcionada pelo filme suscita importantes questionamentos acerca da prática pedagógica. Frequentemente, o ambiente escolar é levado a interpretar comportamentos, dificuldades de aprendizagem, desinteresse, agressividade, retraimento ou conflitos interpessoais apenas a partir de suas manifestações visíveis. Entretanto, a narrativa de Sonata de Outono demonstra que, por trás de determinadas atitudes, podem existir histórias marcadas por ausências afetivas, fragilidades emocionais, sentimentos de não pertencimento e experiências de sofrimento que nem sempre encontram espaço para serem verbalizadas.

Nesse contexto, o filme reforça a importância da construção de uma escuta sensível no ambiente escolar. Não se trata de assumir funções terapêuticas que extrapolam o papel docente, mas de reconhecer que o processo educativo envolve sujeitos singulares, atravessados por diferentes experiências de vida. A escuta, o acolhimento, o respeito às diferenças e a criação de ambientes pedagógicos humanizados constituem elementos fundamentais para que a escola se torne um espaço de reconhecimento e desenvolvimento integral dos estudantes.

Na Educação Física, essa compreensão torna-se ainda mais relevante, uma vez que o corpo frequentemente expressa sentimentos, conflitos e subjetividades que não encontram lugar na linguagem verbal. As relações estabelecidas durante as práticas corporais, os jogos, as lutas, as danças e os esportes podem revelar aspectos importantes da constituição subjetiva dos alunos, exigindo do professor sensibilidade para compreender que cada estudante possui uma trajetória singular, marcada por experiências familiares, sociais e emocionais próprias.

Por fim, Sonata de Outono contribui para ampliar o olhar sobre os processos educativos ao evidenciar que educar implica também reconhecer a complexidade humana. A obra reforçou reflexões sobre a importância da escuta, do reconhecimento e do cuidado nas relações interpessoais, evidenciando que a formação dos sujeitos não ocorre apenas pela transmissão de conhecimentos, mas também pelas experiências afetivas que possibilitam a construção de vínculos, a elaboração de sofrimentos e o desenvolvimento da autonomia e da subjetividade. 

REFERÊNCIA

BERGMAN, Ingmar. Sonata de Outono (Höstsonaten). Direção: Ingmar Bergman. Produção: Personafilm. Suécia, 1978. 1 filme (99 min.), son., color.

Filme disponível em: https://youtu.be/kiVUz8FmjP4?si=BE4mjRkfpO-QmKz_ acesso em: 14. jun. 2026.

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