sábado, 16 de maio de 2026

A informática: um dos nomes da sociedade contemporânea

Resumo do capítulo VI do Livro Psicanalise e educação: Novos operadores de leitura, da autora Leny Mrech, publicado em 2002. Atividade vinculada à disciplina Tópicos Especiais: Educação, Psicanálise e Subjetividade do Programa de Pós Graduação em Educação e Contemporaneidade (PPGEduC) da UNEB, vinculada à Linha de Pesquisa 2 – Formação de Professores, ministrada pela professora pós-doutora Maria de Lourdes Ornellas. Resumo produzido pelo discente Marielson Nascimento Alves.

A informática: um dos nomes da sociedade contemporânea


Introdução

O capítulo VI da obra de Leny Mrech propõe uma reflexão crítica sobre a informática como um dos principais símbolos da sociedade contemporânea. A autora não trata a informática apenas como avanço técnico, mas como um fenômeno cultural e subjetivo que reorganiza as formas de relação humana, de comunicação e também os modos de ensinar e aprender.

Segundo Mrech (2002), vivemos uma espécie de crença coletiva em uma rede mundial de informações capaz de conduzir a humanidade a um novo estágio comunicacional. A informática aparece, então, como promessa de conexão total, rapidez e superação das dificuldades comunicativas da humanidade. Entretanto, a autora alerta que exatamente aquilo que se apresenta de forma mais visível pode também operar como forma de encobrimento de outras formas.

Nesse ponto, a discussão aproxima-se da Psicanálise. A autora afirma que, quanto mais evidente parece ser um fenômeno social, mais necessário se torna investigar aquilo que permanece oculto sob sua aparência. Assim, a informática não deve ser compreendida apenas pelo seu aspecto funcional ou tecnológico, mas pelos efeitos subjetivos e simbólicos que produz.

 A sociedade pós-moderna e o império da imagem

Mrech situa essa discussão no contexto da sociedade pós-moderna. Diferentemente da modernidade, que valorizava a autenticidade e os objetos originais, a pós-modernidade desloca o valor para a imagem e para a reprodução.

O objeto original perde centralidade e passa a existir como referência simbólica. O importante já não é possuir o original, mas acessar sua imagem, sua réplica, sua representação. Surge, então, a lógica da sociedade de massas, em que todos podem consumir versões reproduzidas do objeto.

Nesse cenário, o imaginário ganha nova força. A imagem deixa de representar o objeto e passa a ocupar o lugar dele. É nesse contexto que a autora aponta a realidade virtual e o ciberespaço como expressões máximas dessa predominância da imagem.

Há aqui uma forte aproximação com o pensamento de Jacques Lacan, especialmente em relação ao registro do imaginário. Para Lacan, o sujeito se constitui também por identificações imagéticas, por formas ilusórias de completude. A sociedade contemporânea amplia esse processo ao transformar a imagem em organizadora central das relações sociais.

 A informática como semblante da comunicação

Um dos pontos mais importantes do capítulo é quando Mrech afirma que a informática não é propriamente a comunicação em movimento, mas o semblante desse movimento.

A palavra “semblante”, em Lacan, é fundamental. O semblante não é simplesmente mentira; ele é uma aparência que organiza a realidade social. Assim, a informática oferece a promessa de uma comunicação plena entre os seres humanos.

Contudo, a Psicanálise sustenta justamente o contrário: a comunicação humana é marcada pela falta, pelo mal-entendido e pela impossibilidade de dizer tudo. O sujeito nunca consegue transmitir integralmente aquilo que deseja dizer.

Nesse sentido, a informática aparece quase como uma tentativa de reparar a falha estrutural da linguagem humana. Como se o ciberespaço pudesse resolver os desencontros da comunicação real.

A autora levanta questões provocativas, algumas delas poderia ser formulada assim: Se a comunicação entre os sujeitos é tão difícil, estaríamos tentando substituir os vínculos humanos por conexões tecnológicas?

Essa crítica não significa rejeição da tecnologia, mas uma tentativa de compreender o desejo que sustenta essa busca incessante por conexão.

 A máquina como extensão do homem

Outro aspecto importante destacado por Mrech é que frequentemente esquecemos que as máquinas foram criadas a partir do próprio homem.

Inventar um computador ou a informática significa materializar formas humanas de pensamento. A máquina não é exterior ao sujeito; ela é produto da própria subjetividade humana.

Por isso, a Psicanálise não pode ignorar a informática. O psicanalista precisa escutar o que essa tecnologia “fala” sobre o sujeito contemporâneo.

A autora afirma que os objetos produzidos pelos sujeitos também carregam significados e divisões. Em Lacan, o sujeito é estruturalmente dividido, atravessado pela falta e pelo inconsciente. Assim, seus produtos também apresentam ambivalência: Ao mesmo tempo em que criam; Também podem destruir.

A informática amplia possibilidades de conhecimento, comunicação e acesso, mas também pode intensificar alienações, dependências e apagamentos subjetivos.

 O desejo de saber e a educação

Na parte final do capítulo, Mrech desloca a discussão para a educação.

Ela afirma que a Psicanálise não deve fornecer respostas prontas à educação. Seu papel é outro: provocar questões, produzir escuta e permitir novas leituras dos processos educativos.

Aqui aparece uma ideia muito importante da tradição psicanalítica: ensinar não é apenas transmitir conteúdo.

A grande questão deixa de ser:

“Como fazer o aluno aprender?”

e passa a ser:

“Como despertar o desejo de saber?”

A autora propõe que o professor reconheça que existe algo no processo educativo que escapa ao controle técnico e metodológico. Nem toda recusa em aprender é falta de capacidade cognitiva; muitas vezes envolve questões subjetivas, afetivas e inconscientes.

Por isso, a pergunta final do capítulo é extremamente potente: O que é preciso fazer para ensinar um aluno que não quer aprender?

Do ponto de vista psicanalítico, talvez não exista uma técnica capaz de garantir isso. O que existe é a possibilidade de criar condições simbólicas para que o desejo de saber possa emergir.

 Considerações transitórias

A reflexão de Leny Mrech continua extremamente atual porque nos ajuda a perceber que a tecnologia não é neutra. A informática não modifica apenas instrumentos de comunicação; ela também transforma modos de subjetivação, relações sociais e processos educativos. A Psicanálise, especialmente a partir de Lacan, nos convida a olhar para além do fascínio tecnológico e perguntar quais desejos, faltas e formas de alienação estão sendo produzidos na sociedade contemporânea. Na educação, isso significa reconhecer que ensinar não é apenas transmitir informações, mas lidar com sujeitos atravessados pela linguagem, pelo desejo e pela falta.

Referencia

MRECH, Leny Magalhães. Psicanalise e educação: Novos Operadores de leitura. São Paulo: Pioneira Thomson Learning. 2002.

Produção: Marielson Nascimento Alves
Lauro de Freitas, 16 de maio de 2026

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário