quinta-feira, 24 de setembro de 2026

EDUCAÇÃO, TRABALHO E PRECARIZAÇÃO EM DEBATE NO X SEMINÁRIO NACIONAL E VI INTERNACIONAL GEPRAXIS

 

Auditório da biblioteca da UESB - Vitória da Conquista - BA

Evento realizado na UESB reuniu pesquisadores e professores para discutir os desafios contemporâneos da educação

Entre os dias 26 e 28 de agosto de 2026, a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), em Vitória da Conquista - BA, sediou o X Seminário Nacional e VI Internacional GEPRAXIS, espaço de encontro, reflexão e socialização de pesquisas voltadas à educação e às transformações sociais contemporâneas.

O evento possibilitou a apresentação de trabalhos científicos, a participação em mesas-redondas e o diálogo entre pesquisadores, professores e demais participantes interessados nos desafios enfrentados pela educação brasileira.

Entre os participantes esteve o professor Marielson Nascimento Alves, que apresentou o trabalho intitulado “Educação Física na reforma do Ensino Médio Baiano”, contribuindo para as discussões relacionadas às transformações pelas quais vem passando a Educação Física no contexto das atuais políticas curriculares do Ensino Médio.

Além da apresentação de seu trabalho, Marielson acompanhou outras comunicações científicas e participou de mesas-redondas promovidas durante a programação do seminário, ampliando as possibilidades de diálogo com diferentes perspectivas sobre educação, políticas públicas, formação e trabalho.

 

Amanda Moreira da Silva - Profª UERJ, Escritora e Drª em Educação

A palestra de encerramento: Educação e Mundo do trabalho

O encerramento do evento contou com uma apresentação de Amanda Moreira da Silva, que trouxe para o centro do debate as relações entre capitalismo, trabalho, educação e formação da classe trabalhadora.

A exposição partiu de uma análise das transformações ocorridas no mundo do trabalho e de como processos históricos de exploração e precarização assumem novas características no capitalismo contemporâneo. Um dos exemplos utilizados foi o trabalho realizado por entregadores de aplicativos, apresentado como expressão contemporânea da precarização das relações de trabalho.

A partir dessa realidade, a palestrante estabeleceu uma relação entre as condições enfrentadas pelos trabalhadores durante a Revolução Industrial e aquelas encontradas atualmente. Embora os contextos históricos sejam distintos, a exposição chamou atenção para a permanência de determinadas formas de exploração. Se, durante a industrialização, trabalhadores eram submetidos a jornadas extensas e condições insalubres, atualmente muitos trabalhadores de plataformas digitais enfrentam problemas relacionados à ausência de espaços adequados para alimentação, descanso e utilização de banheiros.

A palestra destacou que essa realidade não pode ser compreendida apenas como uma questão individual. Ela precisa ser analisada a partir das próprias características assumidas pelo mundo do trabalho no capitalismo contemporâneo.

 

A juventude e a precarização do trabalho

Um dos pontos de destaque da exposição foi a relação entre juventude, periferia, desigualdade social e trabalho precarizado.

Segundo a perspectiva apresentada na palestra, parte significativa dos trabalhadores inseridos nas plataformas digitais é constituída por jovens que encontram nessas atividades uma alternativa diante do desemprego, da informalidade e das dificuldades de inserção em empregos protegidos por direitos trabalhistas.

Essa realidade também chega às escolas. A palestrante chamou atenção para situações vivenciadas cotidianamente por professores que trabalham com estudantes que, ao mesmo tempo em que frequentam a escola, precisam trabalhar para complementar a renda familiar ou garantir sua própria sobrevivência.

Nesse sentido, a escola não pode ser analisada de forma isolada das transformações que acontecem no mundo do trabalho. As condições concretas de vida dos estudantes interferem diretamente em suas experiências escolares. Compreender essa realidade torna-se indispensável para pensar uma educação comprometida com a formação humana.

 

Brasil: uma formação social marcada pela desigualdade

A análise apresentada também buscou diferenciar a experiência brasileira daquela vivenciada historicamente pelos países centrais do capitalismo.

A palestra destacou que o Brasil possui uma formação social marcada por características próprias, entre elas a escravidão, a desigualdade estrutural, a informalidade e a constituição histórica de uma classe trabalhadora submetida a condições particulares de exploração.

A exposição relacionou essa realidade ao conceito de superexploração, associado à condição de um país capitalista dependente, ressaltando que as desigualdades históricas continuam produzindo efeitos sobre as condições concretas de vida e trabalho da população. Também foi destacada a dimensão racial e de gênero dessa estrutura social, evidenciando que determinados grupos historicamente ocupam posições mais vulneráveis no mercado de trabalho.

Assim, discutir trabalho no Brasil significa também discutir desigualdade, raça, gênero, juventude e condições sociais de existência.

 

Do trabalhador ao “empreendedor de si mesmo”

Outro eixo importante da palestra foi a discussão sobre as transformações na subjetividade dos trabalhadores no contexto do neoliberalismo.

A exposição chamou atenção para a disseminação da ideia de que cada indivíduo seria responsável por administrar a própria trajetória profissional, como se fosse simultaneamente trabalhador, gerente e empreendedor de si mesmo.

Nesse discurso, conceitos como empreendedorismo, resiliência, projeto de vida e competências socioemocionais ganham centralidade.

O problema apontado é que questões estruturais podem acabar sendo transformadas em responsabilidades individuais. Se o sujeito não consegue alcançar determinado padrão de sucesso, a responsabilidade tende a ser atribuída exclusivamente a ele: faltaria esforço, planejamento, resiliência ou capacidade de adaptação.

Essa lógica desloca o debate sobre as condições sociais e econômicas para o indivíduo. A palestra questionou justamente essa perspectiva, defendendo a necessidade de compreender as relações entre formação humana, educação e mundo do trabalho a partir de suas dimensões históricas e sociais.

 

O papel da escola diante das transformações do trabalho

A educação apareceu na palestra como um espaço estratégico para compreender as transformações sociais contemporâneas.

A partir da perspectiva apresentada, as mudanças no mundo do trabalho produzem novas demandas sobre os processos educativos.

Nesse cenário, ganham espaço propostas educacionais que enfatizam competências socioemocionais, empreendedorismo, projeto de vida e educação financeira. A questão central levantada foi: quais interesses estão presentes nessas transformações?

A escola pública ocupa um lugar particularmente importante nesse debate por atender majoritariamente filhos e filhas da classe trabalhadora. Por isso, compreender as relações entre políticas educacionais e mundo do trabalho seria indispensável para analisar as reformas recentes da educação brasileira.

Ao mesmo tempo, a palestra ressaltou que a escola não é um espaço completamente determinado pelos interesses externos. Os professores e demais sujeitos que constituem o cotidiano escolar também produzem mediações, contradições e possibilidades de resistência.

 

As reformas educacionais e a formação para o novo mundo do trabalho

Na segunda parte da exposição, a análise concentrou-se especialmente nas transformações ocorridas na educação brasileira nas últimas décadas.

A palestra recuperou o processo de avanço das políticas de orientação neoliberal a partir dos anos 1990 e destacou a intensificação das transformações a partir de 2016. Foram mencionadas reformas e políticas relacionadas ao mundo do trabalho e à educação, entre elas a reforma trabalhista, a ampliação da terceirização, a reforma da Previdência, a Base Nacional Comum Curricular, a Base Nacional Comum para a Formação de Professores e a Reforma do Ensino Médio.

A exposição procurou compreender essas medidas não como acontecimentos isolados, mas como parte de um processo mais amplo de transformação das relações sociais.

 

Políticas educacionais não podem ser analisadas isoladamente

Uma das principais contribuições da palestra foi justamente a defesa de uma análise articulada das políticas educacionais.

Reforma do Ensino Médio, currículo, competências socioemocionais, empreendedorismo, projeto de vida, educação financeira, tecnologias digitais, plataformas educacionais e políticas de permanência escolar não devem ser compreendidos como fenômenos independentes. Eles fazem parte de um contexto histórico mais amplo.

Essa perspectiva permite compreender que as políticas educacionais são atravessadas por disputas de projetos de sociedade. De um lado, existem interesses relacionados à formação de sujeitos adaptáveis às novas condições do mercado de trabalho. De outro, permanece a possibilidade de uma educação comprometida com a apropriação do conhecimento historicamente produzido, com a formação crítica e com a transformação da realidade.

Marielson Nascimento Alves - Mestre em Educação Física

Uma experiência acadêmica marcada pelo diálogo

A participação no X Seminário Nacional e VI Internacional GEPRAXIS representou, assim, uma importante experiência de formação e intercâmbio acadêmico.

Para Marielson Nascimento Alves, a apresentação da pesquisa sobre a Educação Física na reforma do Ensino Médio Baiano, somada à participação nas mesas-redondas e ao acompanhamento das demais produções científicas, possibilitou ampliar o diálogo com diferentes perspectivas sobre os desafios da educação brasileira.

Mais do que apresentar uma pesquisa, participar de um evento científico dessa natureza significa colocar ideias em circulação, ouvir outras perspectivas, questionar certezas e estabelecer novas conexões entre teoria e prática.

A palestra de encerramento, ao aproximar os debates sobre trabalho, precarização, políticas educacionais, juventude e capitalismo, reforçou justamente essa necessidade de olhar para a educação como parte de uma realidade social mais ampla.

O desafio que permanece é pensar uma educação que não apenas prepare os sujeitos para se adaptar às condições existentes, mas que também lhes permita compreender criticamente a realidade e participar da construção de novas possibilidades para a sociedade.

Nesse sentido, o GEPRAXIS encerra mais uma edição deixando não apenas conhecimentos e debates, mas também perguntas que continuam ecoando para além do espaço acadêmico:

Que educação estamos construindo?

Para qual sociedade estamos formando nossos estudantes?

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